Fray Bentos – Fronteira entre Uruguai e Argentina

Nunca ví uma cidade fronteiriça tão charmosa e interessante!

A cidade de Fray Bentos é muito bem arborizada, banhada pelo Rio Uruguai e possui várias praias junto ao rio, um encanto!

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Pequena história sobre o local

É uma cidade pequena, apenas 24 mil habitantes, mas mesmo assim é possível encontrar opções de bares, restaurantes e hotéis. Maaaaas, não é assim “nossa, quantas opções!” Então o povo de lá desenvolveu um curioso hábito de lazer: andar de carro pela cidade à 15 km/h (não estou brincando, vou postar um videozinho no nosso instagram como prova! rsrs). Eu até tentei, mas não consegui dirigir a menos de 20 km/h sem ter um infarto. Levou um tempo pra gente entender o que estava acontecendo. Saímos do hotel para ir comer, estávamos roxos da fome, já era umas 10h da noite. Empacamos atrás de uma fila de carros indo beeeem devagar e pensamos em várias opções de explicação: trânsito, acidente, passeata, protesto, maconha (já que é legalizada no país)…  Até que eu cansei e ultrapassei a tripa toda de uns 6 carros. Empacamos na próxima fila de carros, indo tão devagar quanto a primeira… Nem esperei muito e no primeiro momento que pude, ultrapassei. Chegamos no restaurante e perguntei a garçonete, pois não estávamos entendendo nada. O restaurate ficava de frente a uma das principais avenidas, beira-rio, e pegamos uma mesa ao ar livre. O espetáculo de carros indo à 15 km/h continuava. As pessoas dentro do carro (inclusive o motorista) passavam encarando a gente e a gente ria e encarava de volta. Carros cheios, crianças com a cabeça na janela.. E a garçonete explicou que era simplesmente uma maneira de passar o tempo e que as pessoas davam várias voltas na mesma quadra e depois iam dormir. Achei hilário, mas dadas as opções de lazer de uma cidade pequena (e eu sei pois minha cidade natal tem 8 mil habitantes), não posso julgar! Se pá eu faria igual se morasse ali! rsrs

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A cidade possui uma área de camping enorme e linda às margens do Rio Uruguai. É uma mini-cidade dentro da cidade, há tudo! Quem vem à um camping assim, nunca mais vai querer ir acampar perto de uma praia na temporada.

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Espaço e sombra é o que não falta, ao contrário do que podemos ver nos acampamentos de verão em Santa Catarina, onde as barracas ficam tão perto uma das outras que mais parecem ser geminadas. A primeira vez que o Darin viu o estilo de camping que temos, ele disse: Mas onde é a área em que podemos acampar? Apontei e ele respondeu assustado: Nessa caixa de areia? rsrs

Fiquei realmente impressionada com a estrutura desse camping Uruguaio. A região se chama Las Cañas. Deixo como dica para o pessoal procurar e talvez planejar ficar um tempo por ali caso estejam passando pela região.

A principal atração turística da cidade é um frigorífico abandonado que em 2015 foi tombado pela Unesco como Patrimônio Histórico da Humanidade.

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Poxa, um frigorífico abandonado, grande coisa?!

Mas é O frigorífico abandonado. Palavras, números, ou imagens não vão conseguir te fazer compreender a magnitute desse lugar. Você precisa vir pessoalmente.

Vou pintar o cenário para que você tenha uma ideia da importância histórica dele. Que na verdade é a história de uma organização global.

Tamanho: aproximadamente 238 hectares – cerca de 170 Maracañas, ou praticamente o tamanho das Cataratas do Iguaçu.

Por 116 anos a empresa exportou e alimentou a Europa, produzia um dos principais alimentos que os soldados consumiam durante a Primeira e Segunda Guerra Mundial (carne enlatada e extrato de carne). Imaginem: em período de guerra, campos são destruídos, mercados estão fechados ou também destruídos, tropas militares se movimentam constantemente e recebem alimentos transportados de outra região, provavelmente em caixas. Esqueça refrigeração. Os alimentos precisam ser não perecíveis ou terem um período de conservação grande. Foi ai que a empresa entrou, produzindo um extrato de carne (tipo uma sopa concentrada e nutritiva) e carne enlatada (corned beef). Em seu auge, chegaram a exportar 16 milhões de latas de corned beef (ano de 1943). E isso era apenas um dos seus produtos.

No começo, a organização produzia apenas o extrato e carne, uma proporção de 32 kilos de carne para cada kilo de extrato. Detalhe, a carne era cozida para produzir o extrato e depois jogada fora!

Tanto os processos químicos quanto o maquinário eram impressionantes para a época (a empresa foi fundada em 1863). Uma junção de conhecimento Alemão e capital Britânico. Eles foram aperfeiçoando seus processos e passaram a utilizar absolutamente tudo o que podiam: faziam o tal extrato, enlatavam a carne, vendiam a gordura animal ou faziam azeites, utilizavam o couro e lã, etc. Vários tipos de animais eram utilizados nos processos, gado, ovelhas, patos, porcos, etc.

Visitar esse lugar me causou mal estar e muita reflexão. Ele é basicamente um matadouro de proporções gigantescas. E é quase impossível não associá-lo aos campos de concentração nazistas alemães. Só que para animais, claro.

Ver a linha de produção e condições de trabalho me transportaram para o filme Tempos Modernos de Charlie Chaplin (1936). Funcionários descalços pisando no sangue dos animais mortos, operando máquinas elétricas estando com os pés na água…

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E ao mesmo tempo que essa organização era tão cruel aos animais e tão miserável aos empregados… ela estava alimentando pessoas que estavam passando fome em períodos de guerra do outro lado do mundo, além de que seus funcionários não tinham outra opção de fonte de renda, dado o período de recessão econômica mundial. Como a vida é complexa e como os rótulos “bom” ou “ruim” não conseguem dar conta da realidade e complexidade da vida.

Para pensar um pouco na importância dessa empresa para região onde ela estava instalada e como ela afetava a vida de todos, achei interessante algumas relatos de moradores que podem ser encontrados no museu.

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A construção desse frigorífico atraiu muitas pessoas para a região, basicamente moldou a cidade, uma relação de codependência. A empresa precisava de funcionários e a população precisava de um trabalho. Em seu auge de produção, a empresa possuia cerca de 4 mil funcionários trabalhando simultanêamente. A empresa funcionava 24h, 3 turnos de funcionários. Como descrito na foto acima, quando o apito da empresa tocava, milhares de funcionários caminhando e em suas bicicletas saiam às pressas para ir almoçar, ou encerrando/iniciando seu turno de trabalho. Como uma boiada barulhenta, abarrotavam as ruas. Ao ouvir os apitos as crianças voltavam correndo para dentro de suas casas por ordem das mães, pois era perigoso ficar na rua com todo o tumulto. À 30km se ouvia o tal apito. Havia sempre uma fila de pessoas à porta da empresa para pedir emprego. Um dia a empresa fecha as portas todas essas hectares de galpões e equipamentos ficam abandonados, assim como a população que construiu suas vidas ao redor do frigorífico. Aos poucos a população foi mudando-se para outras regiões e o lugar virou praticamente uma cidade fantasma.

Frigorífico AngloCom cerca de 4000 funcionários trabalhando simultâneamente,

Por muitos anos, o governo uruguaio tentou trazer outras empresas para o local e aproveitar as construções, nada deu certo. Começaram a explorar o local para o turismo, oferecendo visitas guiadas pelos galpões, além de reunir informações e montar um museu. Hoje, na parte mais recente e melhor conservada do antigo frigorífico está instalada uma universidade de tecnologia. Há também restaurantes e bares para servir os turistas e estudantes. A cidade voltou a atrair moradores.

Em 2015 toda a propriedade e os entornos foram tombados pela Unesco como Patrimônio Histórico da Humanidade. É muito interessante ver a relação entre a empresa e a cidade ao longo do tempo e como as coisas estão hoje. Atualente, algumas partes da cidade ainda parecem com uma cidade-fantasma. Mas a maior parte é muito bem cuidada e agradável.

A visita guiada acontece duas vezes ao dia, uma as 9:30h e outra as 17:30h. Ela dura mais de 2h e ainda assim apenas uma pequena parte da propriedade é visitada. Seria necessário fazer o passeio de bicicleta e levar o dia inteiro para conhecer tudo. O valor da visita guiada é irrisório, algo em torno de 2 reais por pessoa e isso ainda lhe dá direito de visitar o museu também. Se a visita guiada não estiver disponível quando você chegar, é possível visitar apenas o museu por apenas alguns centavos. Mas a visita guiada vale muito a pena!

Foi muito interessante conhecer a cidade Fray Bentos, seus parques, campings, praias (junto ao rio) e história. A travessia pela ponte internacional também é linda. Recomendamos o trajeto!

 

 

 

 

 

 

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