A Experiência de Atravessar os Lençóis Maranhenses a Pé

Fizemos a travessia em Julho de 2018. Nesse mês há lagoas entre as dunas, que se formam com a água da chuva. Algumas com cerca de 50 m de comprimento e outras com mais de 5 km.

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Nascer do sol nos Lençóis Maranhenses

Então ao invés de sentirmos que estávamos caminhando por um deserto, pareceu mais um parque de diversões.

Foram 34 km divididos em dois dias. 9h30min de caminhada.

 

 

O Darin e eu trabalhamos pelo computador em casa, então não estamos na nossa melhor forma física. Amamos fazer trilhas. Mas os músculos não dão a mínima para palavras de amor e sentimentos sem ações. Desse modo, esperávamos que seria uma experiência dolorosa, mas que dariamos conta e valeria a pena.

Lí vários relatos de pessoas que fizeram a travessia e as dicas que elas davam. Aliás, se você quiser saber mais detalhes sobre a logística, clique aqui. Pois esse texto será mais sobre a experiência, como me senti fazendo essa trilha.

No primeiro dia não senti muita dor muscular, só um cansaço. Fiquei muito surpresa. Mas o Darin e eu pensamos em algumas hipóteses para explicar o fato. Primeiro, fizemos uma boa pausa de 4h para almoço em um dos oásis. Assim, acredito que nossos músculos realmente conseguiram se recuperar. Segundo, dormimos muito bem na noite anterior, das 9 da noite às 4 da manhã.  A única coisa é que meu corpo ficou bem confuso com relação ao quanto de comida e água ele precisava. Penso que ele entendeu que eu estava em alguma situação de perigo (calor + atividade física contínua) e decidiu algo do tipo: “Ela está precisando de todas as energias possíveis para defender-se desse risco de vida iminente. Não devo distraí-la de sua missão. Vou esperar que ela pare e se alimente quando puder”.

A questão é que eu só percebi que algo não estava certo quando chegou a dor de cabeça. Mas a partir de então me forcei a fazer mais pausas, comer mais e tomar água mesmo sem receber o sinal de que precisava.

Até trocamos algumas palavras com o guia no início da trilha – afinal, estávamos conhecendo ele pela primeira vez. Entretanto, você não consegue manter o papo e o ritmo de caminhada ao mesmo tempo. Foram dois dias de bastante silêncio. Não há barulho de carros ou outras pessoas conversando, apenas o vento forte e constante que carrega a fina areia dos Lençóis.

Para não dizer que não havia som nenhum, duas vezes fomos atacados por gaivotas – deveríamos estar perto do ninho sem perceber. O guia nos instruiu a não dar bola, pois desse jeito a ave ia embora mais rápido. Para mim foi difícil fazer isso. Pois ela dava mergulhos bem próximos da nossa cabeça e mudava de direção no último segundo e eu não sou muito boa no jogo de “quem amarela primeiro” e as vezes me abaixava só por precaução (risos).

Mas gente, acho que batí meu recorde de tempo contínuo sem falar por dia na vida! Talvez eu deva fazer isso mais vezes! (risos) Olha, já pensei em algumas pessoas que eu podia indicar ir fazer essa trilha também! hahahaha

A areia não era tão fofa quanto eu pensava que seria, o que tornou a caminhada um pouco mais fácil. O vento é tão forte que forma uma crosta mais sólida sobre a areia. Também, o guia procurou escolher um caminho que facilitasse nossa caminhada. Sempre que as lagoas eram rasas atravessávamos por dentro da água ao invés de fazer uma volta ou uma subida desnecessária. Além disso, a água era um refresco bem-vindo.

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Atravessando lagoa dentro do oásis – Lençóis Maranhenses

Mesmo o trajeto não sendo todo de areia fofa, é um terreno bem mais instável do que as trilhas no chão batido que estamos acostumados. Então usar um tênis me ajudou bastante a firmar minha pisada. Definitivamente não é uma caminhada que você pode ficar todo molengo comendo mosca. Tive que focar na minha pisada e tentar usar todo o meu corpo para não machucar o tornozelo – foi a parte do meu corpo que mais tive dor durante a travessia. Basicamente, o que deu certo para mim foi ativar o abdômen e tentar levantar mais as pernas em cada passo. Deixando assim os tornozelos em uma posição mais neutra (reta) e firme. Quanto mais inclinada fosse a duna, mais eu usava a ponta dos pés na subida e os calcanhares na descida – mantendo os tornozelos retos e usando outros músculos para não sobrecarregar os tornozelos.

O vento… O vento com certeza auxíliou bastante em vários sentidos: para tornar a temperatura mais agradável, para ser nossa “bússula” de caminhada e para deixar a areia mais compactada e com temperatura agradável (mesmo no sol do meio-dia era possível andar descalço pois o vento não deixava a areia superaquecer). Mas chegou um ponto que eu não aguentava mais a areia que o vento carregava batendo no meu rosto como a chuva de verão golpea a janela. Se você pensa que “é só se esconder atrás da duna”, vou lhe contar que aprendi que há mais areia se movimentando atrás da duna do que em cima. É algo incrível. O único sossego que conseguimos era quando havia um “vale”, uma baixada cercada por dunas realmente altas. Nesses locais o vento cessava, que alívio!

Também encontramos essa proteção contra o vento nos oásis – pequenas “ilhas” de vegetação que se formaram entre as dunas. Fora isso, nossa estratégia de descando era deitar com a canga em volta do rosto para não comer areia, como na imagem abaixo.

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A canga serviu como um filtro para bloquear a areia, deixando o ar passar

Há dois oásis no meio do parque. Um deles, chamado Baixada Grande, no qual paramos para almoçar. E o outro, Queimada dos Britos, paramos para jantar e dormir. São cerca de 5-6km entre um oásis e outro. Há 12 famílias morando na Queimada dos Britos e 8 na Baixada Grande. Além de ter um ao outro, o que eles têm de mais próximos deles é o mar à aproximadamente 10 km para nordeste ou comunidades fora do parque, cerca de 10km para oeste ou sudoeste. Basicamente, não há ninguém num raio de 10km em qualquer direção. 10 km não é nada quando se tem asfalto. Não com as dunas significa pelo menos 3h de caminhada.

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Redário, Baixada Grande

Isolamento. O poste de eletricidade não chega até lá, nem carteiros, e por muito tempo nem nada ou ninguém. Hoje, como eles servem de ponto de apoio para os turistas, conseguiram dinheiro para começar a melhorar/facilitar suas condições de vida. As duas casas que visitamos, tanto na Baixada Grande quanto na Queimada dos Britos, têm uma placa para captar energia solar. Só que eles não têm baterias com boa capacidade para armazenar a energia captada. Ela basicamente é usada durante o dia e não dura para usar a noite toda. Também, uma das casas tinha refrigeração (durante o dia), mas a outra só tinha mesmo iluminação. Não há TVs ou água aquecida para chuveiros – só para ser mais explícita caso isso não tenha sido entendido pela parte de “não há refrigeração”, já que isso é algo bem mais importante do que os outros itens mencionados.

Consequentemente, eles só cozinham o que vão rapidamente consumir. A comunidade cria galinhas, porcos e bodes. E durante a época de lagoas cheias trazem peixes e criam nas lagoas próximas. Atualmente, com o dinheiro do turismo eles possuem veículo motorizado para ir à cidade mais próxima comprar os itens que precisam e não produzem. Comemos com eles uma comida bem similar ao que estamos acostumados: arroz, feijão e frango (que mataram quando chegamos e prepararam fresco). Gostamos bastante da comida, ótimo tempero.

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Fogão a lenha, Baixada Grande

A água que eles usam para beber vem de um poço artesiano. Para o turista eles vendem água mineral, coca-cola ou cerveja. A água deles não é tratada e o turista não está acostumado. Várias pessoas já passaram mal e hoje eles orientam não beber.

Para tomar banho me deram duas opções: ir para uma das lagoas próximas da casa ou usar um galão que tinham dentro da cabana no banheiro. Como morro de medo de cobras e o guia nos disse que elas saem para as lagoas a noite, quando a temperatura está mais agradável, nem me pagando eu ia para a lagoa de noite. De galão está ótimo! (risos) Peguei a lanterna e fui!

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Banho de galão, Queimada dos Britos

Antes de dormir ainda rolou um foqueira! A cama é uma rede. Só descobri no outro dia, depois de uma noite muito mal dormida, que eu não sabia como usar a rede para dormir. Aparentemente há uma técnica para que seu corpo fique reto. Do jeito que eu usava o meu corpo ficava como a letra “V” ou “U”. Ou seja, o ponto mais baixo era meu quadril, sendo que a cabeça e as pernas ficavam mais elevados. O que resultou em eu acordando com muita dor nos pés por insuficiência de circulação sanguínea. Observe como você deve se posicionar para dormir na rede:

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Posição Correta Para Dormir na Rede

Ainda no primeiro dia, depois de caminhar por uns 10 km, o sol bem forte refletindo sobre a branca areia das dunas, não eram possível ver as “curvas” do relevo muito bem. Na minha visão virou tudo uma coisa só. Eu via o corpo do guia caminhando na nossa frente, subir e descer. Mas não via subida nenhuma, era tudo um branco só. Só percebia que eu estava subindo algo quando ficava mais difícil para respirar. Acho que a ilusão de óptica se juntou a desidratação e o calor e começei a alucinar. Eu entrava e saia dos meus pensamentos e perdia noção de espaço e tempo por alguns momentos. Não conseguia dizer há quanto tempo estávamos caminhando, se eu estava indo pra cima, reto, ou para baixo. O guia “sumia” diante dos meus olhos (atrás de uma duna, mas comecei a viajar com isso). Dai o guia aparecia. Dai eu era sugada por meus pensamentos. Dai “voltava a realidade” e olhava ao redor para ver o que estava acontecendo e pensava “que diabos eu tô fazendo caminhando no deserto?” Então eu dava uma explicação para mim mesmo e continuava caminhando. Comecei a entrar numa “bad trip”: guia some, guia aparece, subida, vento, Darin some, Darin aparece, opa tô descendo… negócio doido!

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Foi então que me lembrei que eu havia trazido MÚSICA!!! Tinha baixado uma playlist no Spotify e tinha trazido meu fone de ouvido. Música eletrônica era tudo o que eu precisava para ter um gás de caminhar por mais 5 km. MANO DO CÉU, melhor coisa que eu fiz! Se eu danço por 10h numa festa, não vou conseguir caminhar por 6h? Claro que vou! Música eletrônica é o melhor energizante, não há energético que supere. Seria TOP fazer um festival nos Lençóis Maranhenses! Cada um com seu fone de ouvido, dançando naquela areia ma-ra-vi-lho-sa! Depois de colocar uma música a sensação foi de que rapidinho chegamos ao nosso destino. Vou te contar que “dançando no deserto” é um nível além de “dançando na chuva”! (risos)

 

No outro dia decidi caminhar sem música novamente, pensar na vida. Acordamos às 3h da manhã e começamos a caminhar às 3:30h. Era lua cheia. Nossa, que vibe! Era como estar caminhando em outro planeta. Tudo brilhava, não precisamos nem de lanterna. Infelizmente a câmera não capta o que nossa retina percebe. Se fosse para fazer uma foto ou vídeo ficaria tudo escuro, mas em nossa vivência o mundo era neon! Tantas estrelas! Apenas o vento como trilha sonora.

A água das lagoas é fria de manhã e um pouco mais morna de tarde e noite. Eu pensei que iríamos fazer mais paradas para tomar banho nas lagoas, mas minha sensação é de que foi uma travessia às pressas. Conversei com o Darin o que seria o ideal para fazer essa travessia, e concordamos que o ideal seria acampar. Assim, você caminha o quanto quiser e então para em qualquer lagoa a qualquer hora. Pode descansar dentro da barraca durante o sol do meio-dia. Ter um pouco de sombra e refúgio da areia. Seria muito top poder fazer uma travessia mais de boas, menos kilômetros caminhados por dia e mais brincadeiras nas dunas e lagoas.

O que aprendi:

  • O mais indicado é usar tênis para proteger seus tornozelos. Leve band-aid para usar se sua pele ficar sensível. Serve tanto para prevenir que bolhas se formem, quanto para remediar se aparecer alguma;
  • Estabeleça um sistema para comer e se hidratar mesmo que não sinta sede ou fome (por exemplo, água a cada 30 min e comida a cada 1h). Você pode fazer isso caminhando, não é preciso parar);
  • Gatorade ajuda bastante na hidratação;
  • Se deite na rede seu com o corpo totalmente reto (membros, costas e cabeça na mesma altura). Para isso é necessário usar a rede na diagonal;
  • Somos mais forte do que pensamos (fisicamente e psicologicamente);

Além de muitas epifanias pessoais que não são conhecimento transmissível por palavra. Você terá que ir em sua própria caminhada pelo deserto para encontrar.

Carpe Diem!

Grande abraço Itinerantes!

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