Por Uma Vida Mais Confortável

Do que você precisa na vida?

O que é “viver bem”?

Essa imagem mostra um estilo de casa que vimos bastante em vários estados do nordeste do Brasil por onde estamos viajando. Telhado de palha/folha de palmeira e paredes de madeira e barro. Quero te convidar a pensar, que tipo de coisas veem à sua cabeça quando você olha para essa casa?

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Talvez algumas dessas abaixo?

  • Essa pessoa não deve ter comida suficiente/deve passar fome;
  • Essa pessoa não tem água potável (muitas pessoas assumem que em todo o nordeste as pessoas tem falta de água);
  • Essa pessoa não é feliz;
  • Essa pessoa não tem contato com o resto do mundo;
  • A vida dessa pessoa é muito difícil (eu não conseguiria).

Nenhum desses pensamentos podem ser comprovados, são hipóteses que criamos baseados em nossas experiências prévias.

Agora te convido para transformar essas conclusões em perguntas e também a ir além do choque da diferença entre essa casa e a sua, para que você consiga ver também as semelhanças.

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Essa casa tem eletricidade – tem até TV pois há uma antena. Ela oferece proteção ao clima e animais (paredes e telhado). Se você não tem ar-condicionado em sua casa, pode ser que a temperatura dentro dessa casa seja mais agradável que na sua (conforto térmico). Se sua casa tiver telhado de eternit ao invés de telhas, essa casa muito provavelmente é mais fresquinha do que a sua. Essa casa é do tamanho de muitos apartamentos dentro dos centros urbanos. As pessoas que moram aqui tem horta e árvores frutíferas em sua propriedade. Você não sabe se essa pessoa gosta de morar aqui, se é feliz, se está passando fome… a única coisa que você fez em 2 segundos foi comparar essa casa com a sua e tirar algumas concluções.

Quando entramos em contato com uma realidade diferente da nossa é preciso ter em mente que não vamos conseguir entendê-la simplesmente comparando com a nossa realidade. Muita gente pensa que entende o que é viver numa casa simples apenas por ter visto uma e ter imaginado como seria para ela viver ali. Dessa experiência saem muitos sentimentos de pena “eu não conseguiria”, “que miséria”, “que terrível”, “me dá algo ruim só de imaginar” – esses são alguns tipos de reação que eu já ouvi. É importante perceber que essa é sua visão e interpretação. Se você quer saber como é para aquela pessoa que mora ali, você terá  que perguntar a ela.

Enquanto colocarmos essa outra pessoa num estado inferior ao nosso e tivermos certeza de que ela quer chegar onde nós estamos, não vamos ter uma relação de igual para igual com ela. A única possibilidade é a pena. Será que essa pessoa morando ali não vive melhor que você? Será que ela não é mais saudável que você? Ou viverá mais tempo que você? Quando abrimos essa possibilidade, mesmo como uma pergunta, temos mais vontade de se relacionar com essa pessoa e aprender sobre ela. Ao invés de assumir que sabemos o que está acontecendo sem nunca ter falado com ela.

Eu vou falar um pouco da minha própria experiência para ver se eu consigo tornar isso mais concreto e compreensível. Eu fiz uma pesquisa durante a faculdade de Psicologia onde eu entrevistava pessoas em suas casas. A pesquisa era sobre casas construídas em áreas de risco de desastre naturais. Então eram comunidades mais pobres, muitas vezes zonas de invazão. O cenário com pouco conforto e muitas faltas: Esgoto à céu aberto, lixo, casas improvisadas com materias reutilizados, instalação elétricas precárias.

As perguntas da pesquisa que eu estava fazendo eram exatamente sobre a percepção do morador sobre a casa, tanto física como afetiva. Eu lia algumas afirmações e o morador tinha que dizer se concordava ou não com ela. Coisas como: minha casa é forte; tem cheiro ruim na minha casa; tenho espaço para receber meus amigos em minha casa; minha casa é grande; gostaria que minha casa fosse maior; minha casa é bonita; gostaria de morar em outro lugar; entre outros.

E depois dessa experiência eu pude perceber concretamente o abismo que há entre o meu olhar e o olhar do outro. Mesmo em questões que eu considerava como físicas e objetivas – como o tamanho da casa – se mostraram ser totalmente subjetivas. Algo ser “grande o suficiente” tem a ver com o que estamos comparando e nossas expectativas. Haviam casas que para mim eram minúsculas, eu até me sentia um pouco sufocada dentro e que o morador dizia que era enorme e que tinha espaço para receber visitas. Casas que na minha visão o telhado ia voar em meio a primeira tempestade e o morador me dava um grande sorriso confidente dizendo “Sim, minha casa é muito forte” e “Eu acho a minha casa bonita demais!”.

A grande maioria daquelas pessoas (mais de 90%), sentia muito orgulho de sua casa. Haviam ajudado a construí-la. Tinham orgulho em me receber nela. Falavam sobre sua casa com um sorriso no lábio. Estavam felizes e satisfeitos em morar ali. Respondiam que não queriam morar em outro lugar.

Muito diferente do que você e eu pensaríamos ao dirigir por essa casas e julgá-las. Temos essa limitação enquanto seres humanos. Vemos a vida com nossos olhos, nosso corpo, nossa experiência, nosso ponto de vista. A esse conjunto de experiências singulares do qual vemos o mundo eu chamo de bolha. Nunca vamos sair da bolha. Podemos ter uma bolha maior ou menor, mas é impossível se desfazer dela. O que podemos fazer é sempre nos lembrarmos que a bolha existe e assim, lutar contra nossos pré-conceitos (conceitos que trazemos com a gente).

Como? Pergunte mais e julgue menos.

Olhe para os outros com o olhar de curiosidade e não de julgamento. Escute a história do outro como ele o conta. Não assuma que o outro quer o mesmo que você.  Precisamos usar as palavras, esquecer essa história de “para bom entendedor meia palavra basta”. Somos todos maus entendedores. A vida seria mais fácil se a gente intrepretasse menos e perguntasse mais. E se a gente conseguisse entender que as coisas coexistem, não são excludentes. Uma história tem muita versões – elas coexistem, não é que uma das versões é “a verdade” ou “a realidade” e a outra não.

Um movimento comum que tenho acompanhado é que as pessoas estão cada vez mais associando o conforto com a felicidade. “Não vou deixar faltar nada para meu filho, assim ele será feliz”. Vejo pessoas fazendo horas extras, trabalhando em dois empregos para “ter uma vida melhor”. Mas essa vida melhor de que se referem são bens materiais, conforto. De fato elas serão mais felizes ou viverão melhor depois de adquirir mais bens e mais conforto?

Na verdade vejo essas mesmas pessoas se tornando mais e mais infelizes com o passar do tempo. Eles conseguiram uma casa e um carro melhor – mas não fazem nada da vida além de trabalhar. Tem relações piores com seus familiares, mais brigas, menos tempo de qualidade – mas o importante é a TV a cabo e um carro na garagem. E se você perguntar a eles se eles estão satisfeitos, a resposta é não. Se eu puxasse a entrevista que fiz com aquelas comunidades pobres: “minha casa é bonita”, “minha casa tem espaço suficiente para receber meus amigos”… a resposta seria: “mais ou menos”, “podia ser melhor”. Quanto mais você possue, mais custa para manter. Assim o círculo não tem fim. E depois de adquirir algo, parece que a pessoa não consegue mais imaginar sua vida sem aquilo. Ficam com uma visão de vida rígida, como se tivesse que ser daquele jeito.

Eu vejo as pessoas caminhando numa esteira sem fim para ter mais. Nunca é o suficiente. Com quem elas estão se comparando? Por que uma casa feita de barro causa tanto desconforto para seus olhos? Por que é uma ideia absurda morar ali? Será que não é reconfortante pensar que podemos ser felizes com tão pouco? Conheci muitas pessoas nos seus 90 e poucos anos morando em casas assim simples, satisfeitas com sua vida.

Afinal, quem é o miserável? Aquele que pouco tem, ou aquele que nunca tem o suficiente?

Que nós possamos sempre nos ver nos outros, ver nossas semelhanças acima das nossas diferenças. Que o encontro com o outro nos possibilite ver novas maneiras de viver – sem julgar outras formas como inferior a sua. Desse modo, os encontros dessa vida serão mais leves e com mais ensinamentos.

Dificuldade não é oposto de felicidade e nem conforto é sua garantia.

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