Cruzando a Fronteira entre Brasil & Paraguai

Me senti muito grata por já ter atravessado anteriormente a fronteira entre o Brasil e o Paraguai pela Ponte da Amizade com alguém que tinha experiência. Pois ela é muito caótica e eu muito provavelmente teria caído na lábia de um dos ambulantes que abordam agressivamente os carros se nunca tivesse atravessado com alguém ou lido dicas. Contudo, espero que esse relato e imagens possam lhe ajudar a preparar os que cruzarão essa fronteira pela primeira vez.

Dando um pouco de contexto, a Ponte da Amizade conecta a cidade Brasileira de Foz do Iguaçu com a cidade Paraguaia Ciudad del Este. Essa é uma fronteira bastante tumultuada por causa do baixo custo de mercadorias na Ciudad del Este.

contrabando
Pessoas passando contrabando pela cerca depois de terem passado pela fiscalização

Grande parte da população Brasileira já ouviu falar sobre a existência de produtos mais baratos advindos do Paraguai. Existe até a expressão “produto do Paraguai”. Por muito tempo eu pensei que isso ocorria por serem produtos falsos – réplicas mais baratas. Entretanto, diferente da China, o Paraguai não é polo industrial de produção de produtos. Existem industrias, porém essa grande disponibilidade de produtos com preço mais barato se dá porque a Ciudad del Este é uma zona franca de importação. Ou seja, não há taxa de importação – aquela taxa básica que no Brasil pode chegar a 60% em cima do valor do produto (mais informações).

A Ciudad del Este é, na verdade, a maior zona franca de taxa importação do mundo. As vendas feitas na cidade, principalmente para os vizinhos Brasil e Argentina, representa 10% do PIB do Paraguai.

Explicado isso, fica evidente o porquê de muitos Brasileiros cruzarem essa fronteira em específico. O fluxo de pessoas atravessando a Ponte da Amizade é tão grande que não há checagem de identidade.

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Billboards dos Shopping na Ciudad del Este

O que acontece com alguma frequência é que no retorno ao Brasil (do Paraguai para o Brasil) você pode ser escolhido para encostar seu carro e passar por inspecção para verificar se você não está trazendo mercadorias para o país sem declarar e pagar impostos exigidos pela legislação brasileira.

Como nós iríamos até Asunción, tivemos que estacionar o carro após a entrada na Ciudad del Este e ir fazer o procedimento oficial de entrada no país – fica nessa sala que aparece à direita da foto acima, nesse espaço coberto.

De modo geral, não recomendamos que a pessoa use seu automóvel para atravessar a fronteira. Tanto para os casos onde a pessoa irá apenas fazer compras na Ciudad del Este quanto para ir à outros pontos do país como Asunción ou Chaco. Fortemente recomendamos o uso de transporte público ou uso de uma van privada com placa Paraguaia, grande parte por causa da corrupção dos policiais. Além disso, há o risco de se envolver em um acidente de trânsito e ter que bancar todo o custo de conserto do seu automóvel, pois a legislação (e talvez o mais importante, a implementação da legislação) é bem flexível quanto a responsibilização do culpado.

Para quem nunca foi estorquido por policias antes, esse relato é para você, para que você não seja tão inocente quanto eu fui. Quando eu lia na internet relatos sobre policiais pedindo propina, eu pensava que a razão de isso ter acontecido com aquela pessoa era uma dessas duas:

a) o viajante tinha de fato transgredido alguma legislação e o policial apenas cobrava uma propina ao invés de fazer o processo formal de multa;

b) o policial inventava uma infração que não existia, mas o viajante só pagava a propina por desconhecimento da questão, por pensar que de fato tinha ocorrido alguma transgressão. Eu sempre pensei que se você conhece bem a legislação e “confrontasse” o policial – no sentido de mostrar que sabe que não há infração – não haveria pedido de propina. O que para mim é cruzar a linha entre “tirar vantagem da situação” para “coação e roubo”.

Agora sei que não são apenas essas duas situações que exitem e apenas o conhecimento da legislação não irá te salvar de sofrer ameaças por parte dos policiais. Foi o que aconteceu conosco no caminho entre Ciudad del Este e Asunción. Fomos parados por dois policiais e mesmo tendo todas as documentações, prosseguiram em nos ameaçar. Pediram a nota fiscal de todos os eletrônicos que estavam visíveis: o drone e os monitores que usamos para trabalhar. Mostramos as notas fiscais no celular e provamos que eram mercadoria nossas, de uso pessoal e que já haviam sido compradas há mais de 1 ano atrás. Depois disso ele exigiu que as notas fiscais fossem impressas (?!). Avistei uma farmácia do lado da estrada e disse que eu iria até lá imprimir as notas e voltaria em breve.

Nesse ponto, o policial aumentou a sua exigência e sua ameaça – inventou que nós tínhamos de ter cadastrado esses pertences junto à Aduana quando entramos. Falei que perguntamos sobre isso na entrada ao Paraguai e que não existia essa necessidade. Então ele disse que isso deveria ser feito na “aduana Brasileira” (Alfândega Brasileira) e que eles teriam que confiscar nossos eletrônicos pois eram contrabando de mercadorias (?!).

aduana
Trecho retirado do site da Alfândega confirmando que eles não emitem documentação de comprovação de bens

Tentei entender como deveríamos proceder para recuperar nossos eletrônicos, já que tínhamos como comprovar que eram nosso e de uso pessoal. Perguntei para qual cidade os eletrônicos seriam levados, pois meu plano era já ir seguindo eles e já iniciar o procedimento para reaver nossos bens.

Nada – ele só me enrolava e comecei a ficar com medo de que na verdade eles roubariam nossos eletrônicos e não havería nem metade deles na hora de retirar. Foi aí que ele veio com o papo “me ajude a te ajudar”. Com o argumento de que nossos eletrônicos eram caros, pegaram todo o dinheiro que dissemos que tínhamos, 160 reais. Ficaram insistindo e perguntando se nós não tínhamos dólares ou guaranís (moeda do Paraguai). Falei que não, que havíamos trocados um pouco de guaraní na fronteira, mas dava apenas para os pegágios e que eu precisaria desse dinheiro e não podia dar para ele. Insatisfeito com a situação e nos olhando torto, nos liberou para seguirmos viagem.

Foi uma sensação horrível de roubo. Não consigo usar nenhuma outra palavra, pois estava tudo em ordem e nos coagiram a dar “todo” o nosso dinheiro. Depois, ao pesquisar mais relatos na internet, ví que o nosso caso não foi nem de perto o pior. Vou deixar os links aqui e peço para que leiam antes de decidir entrar de carro no país. Conversando com uma tia minha, ela ainda lembrou que o pai dela, meu avô, sempre reclamava da polícia Paraguaia quando vinha ao país – e isso faz cerca de 20 anos atrás. Já é um problema sistêmico e até os delegados estão envolvidos nesse roubo aos turistas.

Relatos de Brasileiros que tiveram problemas com policiais corruptos no Paraguai

Se mesmo assim você decidir entrar com seu automóvel, nossas sugestões são:

  • Divida seu dinheiro em vários locais. Deixe apenas cerca de 50 reais na sua carteira para que você possa alegar com o policial de que isso é tudo o que você possui. Conversei com uma Paraguaia que disse que os policias chegam ao ponto de pegar sua carteira e revistar. Então fique esperto com a quantidade de dinheiro que você tem na carteira;
  • Não deixe nenhum eletrônico facilmente visível. Por exemplo, que ao retirar alguma mala para inspeção ele fique à mostra. Contudo, não coloque nada em compartimentos secretos no carro pois isso pode ser considerado uma transgressão, um contrabando;
  • Saiba a legislação – assim você pode negociar a seu favor e não cair em acusações ridículas. Por exemplo: não é necessário ter lençol ou corda no carro, isso é uma legislação muito antiga que não existe mais. A dica de um Paraguaio foi que, ao perceber que o policial está inventando exigências para conseguir propina, que você confronte (educadamente) de que não é assim e você sabe, mas que também já encerre a conversa assegurando que toda sua documentação está correta e oferecendo se ele aceita que você pague um café/tererê/cerveja para ele. Algo em torno de uns 20 mil guaranís (15 reais) seria o suficiente – de acordo com esse Paraguaio.

A procura pelo turismo é mais evidente do lado Brasileiro da fronteira, na cidade de Foz do Iguaçu. Entretanto, o Paraguai tem alguns locais interessantes, como as Ruínas de Trinidad e o Chaco (o Paraguay tem parte do Pantanal em seu território).

Vou falar um pouco das condições das estradas Paraguaias. Ao viajar cerca de 300km entre a Ciudad del Este, na fronteira do Brasil, até Asuncion, a impressão é de que estávamos trafegando em uma enorme zona rural. Apenas a rodovia central era asfaltada e as ruas secundárias eram de terra. Muitos animais ao lado da via, galinhas, porcos e gado. Também haviam gramados bem cortados com redes de vôlei ou traves de futebol, junto à casas construídas próximo das rodovias.

Haviam postos de gasolina e paradas para alimentação com boa frequência. Atenção para qual combustível colocar em seu automóvel: Gasoil significa diesel e Nafta significa gasolina. Passamos por três pedágios já próximo de Asunción, custavam cerca de 5 mil Guaranís cada um – não é aceito moeda estrangeira.

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Gasolina é chamada de Nafta ou Super no Paraguai – preço de 2019

Ao passar cerca de 4km da fronteira, o caos fica para trás e já é possível parar o carro para trocar seu dinheiro e comprar um chip de celular (melhor maneira de ter acesso à internet é comprando um chip local). Segundo a nossa busca, a empresa com melhor cobertura nacional é a Tigo,  assim, paramos em uma loja junto à rodovia para obter um chip. Em menos de 30 min dentro do país já tinhamos o dinheiro e número de telefone local.

No Paraguai não tem street view no Google Maps. O que sugerimos é ficar de olho no lado esquerdo da via, a estrada oposta àquela em direção à Asunción, para avistar a loja da Tigo. Assim, será necessário fazer um retorno. Ao passar por cima de um viaduto, saia da via principal e pegue o retorno mais próximo. Agora estando na pista em direção ao Brasil, você passará novamente pelo viaduto e já pode pegar a primeira saída e trafegar na via marginal (Avenida Monseñor Rodriguez) até avistar o grande prédio da Tigo. Ao lado da loja da Tigo há caixas eletrônicos e casas de câmbio para obter a moeda nacional. Nessa data que fomos, o chip era totalmente gratuito, apenas pagamos para inserir créditos.

Espero que essas informações lhe ajudem em sua jornada!

Grande Abraço


Se houver uma infração, a multa deve ser eletrônica: https://www.radioculturafoz.com.br/2018/10/11/paraguai-passa-a-cobrar-multa-eletronica-para-evitar-propina-nas-rodovias/

Há até relatos de policiais que se recusam a devolver os documentos do motorista sem que ele pague propina: http://www.naoviu.com.br/brasileiro-queixa-propina-propria-policia-paraguaia-video-viraliza/

Atualização: parece que há um projeto de lei sendo construído para que policiais Paraguaios não possam aceitar qualquer tipo de doação por realizar seu trabalho. Viajantes, continuem olhando as notícias para saber se a lei foi implantada: http://www.mdi.gov.py/index.php/viceministro-de-seguridad-interna/item/11473-ministro-del-interior-repudia-cobro-de-%E2%80%9Cpropina%E2%80%9D-por-cumplir-trabajo-policial

 

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